Um dos maiores sucessos da Disney está para abrilhantar novamente as telas de cinema – e mais uma vez interpretaremos errado sua mensagem. O “Rei Leão” não é sobre esquecer dos problemas, mas sim, sobre enfrenta-los! 

…SE NÃO FOSSE POR VOCÊ, AINDA ESTARIA VIVO…

E Scar chega a fatídica cena em que todos nós choramos muito: Simba está deitado ao lado do cadáver de seu pai, Mufasa. Sádico com toques de psicopatia, pergunta ao sobrinho o que fizera para ter desembocado naquela tragédia. Não sabendo explicar, com os olhos cheios de lágrimas, o filhote recebe a culpa de ter matado o próprio pai. Quilo a quilo de culpa e manipulação de seu tio, Simba é orientado a fugir e não voltar nunca! 

Scar manipulando Simba

…OS SEUS PROBLEMAS VOCÊ DEVE ESQUECER…

Alguns minutos depois, conhecemos Timão e Pumba e sua filosofia de vida: Hakuna Matata. Um jeito desgrudado e despreocupado de encarar a vida – sem preocupações sobre o passado e o futuro. O primeiro, esquecendo-o, e o segundo, não sendo aguardado. Um eterno Carpe Diem. Mas será que um dos melhores filmes da Disney é sobre esquecer dos problemas e curtir tudo o que a vida tem a oferecer?

filme
Timão e Pumba quando encontram Simba fugido

Pois bem, vamos analisar friamente o filme e suas mensagens, para que, logo no finalzinho, cheguemos à nossa conclusão. 

…O CICLO SEM FIM…

O filme começa com o nascer do sol, dando noção de temporalidade cíclica, sendo confirmada com o nascimento de um futuro novo rei – Simba. Mais adiante do longa, confirmando tal ciclicidade da narrativa, vemos, durante seu primeiro ato, Mufasa explicando ao filhote Simba como cada ser está conectado, terminando com elucubrações sobre a morte (à noite, dando maior tom dramático à cena), utilizando-se da metáfora do nascer e do pôr-do-sol, do nascer do tempo de um rei e o seu final. 

Clipe inicial do longa, “Ciclo sem Fim”

Em suma, tudo está conectado por uma espécie de destino, desde o nascimento até a nossa morte. Desde a matéria até nossas relações sociais – a Sociedade de Corte, neste caso. O destino de Simba é ser rei. Não há o que se discutir – vemos, inclusive, o príncipe cantar e dançar acerca de sua vontade e desejo de ocupar a Pedra do Rei. Assim como toda relação biológica, ou social, ou da nossa vida em si, tudo tem seu tempo. O tempo do reinado de Simba está porvir. Dias, semanas, meses e anos – seu reinado chegará, pois é esse seu destino. 

O Rei Leão
Música “O Que Eu Quero Mais é Ser Rei”

Mas, e se o tal equilíbrio for rompido? 

…SE PREPAREM…

E quando alguém que não nasceu pra reinar, torna-se rei? Eis Scar, a resposta! 

O Rei Leão
Scar cantando sua música tema “Se Preparem”

Scar não nasceu para o trono, mas mesmo assim o quer e fará de tudo para tê-lo – nem que ele tenha que matar membros da família. Porém, ao levar a cabo tal desejo, Scar rompe, quebra, destrói de maneira horrenda o delicado ciclo da vida. É como, biologicamente falando, se houvesse um desequilíbrio ecológico em determinada região. 

O Rei Leão
Scar pondo em prática seu plano

Com uma “surpresa de matar”, desejando ironicamente “vida longa ao rei” e mandando seu sobrinho fugir, Scar consegue acabar com o tal equilíbrio, assumindo, junto das suas queridas amigas hienas, a Pedra do Reino. O ciclo se quebrou, e todos que vivem dentro dele sentirão os impactos – menos Simba… 

…QUANDO O MUNDO VIRA AS COSTAS PRA VOCÊ…

E simba, depois de fugir muito de seu tio e suposta culpa, conhece Timão e Pumba, adota seu estilo de vida e coloca para trás seu passado. Vira as costas para o mundo. Mas fugir de nossos problemas não torna as coisas mais fáceis. 

O Rei Leão
“Hakuna Matata”, música tema da dupla Timão e Pumba

Vemos Simba, nas cenas seguintes, ser assombrado pelas memórias de seu pai – por exemplo na cena em que está deitado junto de Timão e Pumba, em uma clareira, olhando para o céu. Os amigos tentam adivinhar o que seriam aquelas “coisas brilhosas grudadas no céu” – para Timão, sao vagalumes, para Pumba, gigantes gasosas, e para Simba – eis seu incômodo com as memórias de seu pai -, são reis do passado que estão a olha-los. 

Simba sente-se confuso e triste com suas lembranças

O passado está lá trás, para Simba, importando apenas o presente. Porém, o vemos incomodado, como se algumas questões pendentes o estivessem a afogar. Esquecer, pelo visto, não é a solução! Muito melancólicamente, Simba, depois de debater-se contra si e seus demônios, deita-se na relva, levantando umas folhas secas e sementinhas de pólen, que voam pelo vento e…

…JÁ ERA TEMPO…

Rafiki pegas as folhas, as sementes e o vento e descobre que Simba está vivo! Em puro êxtase, vai até uma pintura que fizera do príncipe quando filhote, e desenha uma juba vermelha. O ciclo, apesar de quebrado, não acabou! O destino, mais hora, menos hora, age sobre as vidas… 

Rafiki descobre que Simba está vivo

…AH, UM MUNDO BEM MELHOR… 

E quando o ciclo é quebrado? Bem, sabemos que Scar não nasceu para o trono, e a prova é aterradora – o antes verdejante reinado de Mufasa, cheio de bichos de toda a sorte, está seco e morto; assim como o rio, que antes alimentava as vidas todas. Donde Scar manda e desmanda, há ossadas de outros animais, ao passo que o vemos manipulando um crânio enquanto canta musiquinhas bobas junto de Zazu, tal qual um ventríloquo.

Cena que comprova a inabilidade de Scar em ser monarca

Nessa cena em si, podemos inferir uma característica intrínseca do vilão: o poder de manipulação dos que estão ao seu redor. E indo mais afundo, pode-se inferir que tudo o que Scar toca, morre, quebra, apodrece. Ou melhor dizendo, quando o tal destino é corrompido, tudo apodrece, desanda – outrora, os campos verdes, agora o cinza. 

…NESTA NOITE O AMOR CHEGOU…

Mas o destino é sábio, e faz e refaz os cursos da vida muito inteligentemente. No final do segundo ato do filme, logo depois de Rafiki ter ciência de Simba estar vivo e de vermos a inabilidade de Scar em ser monarca, Nala retorna para Simba. Melhor dizendo, Simba – antes morto -, retorna para Nala; assim como todos os sentimentos guardados, bons ou ruins, culpas e amores, voltam à baila.

triste
Simba e Nala se reencontram

Timão e Pumba descobren que seu melhor amigo de anos é rei, e que deve reclamar seu lugar de direito na Pedra do Reino, ocupada por Scar. Nala, Timão e Pumba, animadíssimos com um “novo” Simba, estranham seu comportamento: o monarca em potencial recusa-se veementemente a assumir-se rei, esconde-se atrás da filosofia dos amigos de ignorar o mundo e viver um eterno agora. Vemos transcrito tal comportamento escapista na letra da música: “Nesta Noite o Amor Chegou”. 

“(…) São tantas coisas a dizer
mas como lhe explicar
o que aconteceu
Não vou contar
se não vai me deixar

O que que ele esconde
e não quer revelar
pois dentro dele um rei existe
mas que não quer mostrar (…)”

Nesta passagem, fica mais que claro todo o drama interno de Simba. Apesar de adulto, ainda é uma criança assustada com a língua afiada de seu tio doente, e uma culpa que não existe. Mas as coisas mudam. 

Música tema do casal Simba e Nala

…NÃO INTERESSA, ESTÁ NO PASSADO…

Logo depois de Nala, vemos Rafiki. A primeira, veio para despertar todos os sentimentos latentes de Simba, enquanto que o segundo veio para – numa cena aterradora -, acordar Simba para a realidade. Não vamos nos alongar na cena em si, mas sim em seu conteúdo: depois de ver seu pai nas nuvens, Simba aprende com Rafiki a não fugir do passado, mas sim aprender com ele, mesmo doendo muito. É esta cena que vale o filme todo – e torna o tal Hakuna Matata um grande desserviço… Não é sobre fugir, mas sobre enfrentamento, “O Rei Leão”.

Simba vê Mufasa

…EM OUTRAS PALAVRAS…

Não que a filosofia dos amigos Timão e Pumba seja de fato ruim. Longe disso! É preciso sim desgrudar-se, uma hora ou outra, do que nos faz, ou fez, mal, de um passado ruim, que nos machucou de alguma forma. Porém, não devemos fugir das nossas responsabilidades (estejam elas no tempo que for), e esconde-las embaixo do tapete – uma hora ou outra, elas nos cobram posições. Vamos resolver aquela pendência? Sim? Por que não? Quando? 

A mensagem que “O Rei Leão” nos passa de fato – uma pena o grande público não ter captado -, é sobre enfrentarmos nossas pendências, medos e desafios. Aprender com os golpes que a vida nos dá (ou o cajado de Rafiki), e superar as dores todas. Para que, no final, conquistemos o nosso lugar na Pedra do Reino – ou qualquer outro reinado por aí -, e matar o Scar. O importante é entendermos e deixar fluir o grande Ciclo da Vida

Cena final do longa