Crítica | Bacurau

Aguardado filme estreia nesta quinta-feira, dia 29 de agosto, em circuito comercial (Texto: Gabriele Slaffer*)

Ganhador recentemente do Prêmio do Juri do Festival de Cannes o novo projeto de Kleber Mendonça Filho, é assinado em parceria com Juliano Dornelles. Bacurau, que estreia nesta quinta-feira, 29 de agosto, nos cinemas brasileiros, cria no telespectador um hype enorme, sendo capaz de instiga-lo e proporcionar uma experiência inimaginável até mesmo antes de colocar os pés na sala de cinema. Aqui pode-se ter o risco de não atender as expectativas do público. O longa-metragem desafia as (pré) noções nascidas em todo das expectativas em ”ser o maior e melhor longa do gênero brasileiro” e sendo um forte concorrente ao Oscar 2020,  faz disso com uma convicção que o torna ainda mais especial. Bacurau tem interagido muito bem com os espectadores ainda na sua fase de pré-estreia. Tratado fora do país como uma mistura entre o western, ficção cientifica e distopia.

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Situando no Nordeste do Brasil, o ponto central da trama se desenvolve no protagonismo dos moradores da cidadezinha de Bacurau, onde o enredo se constrói através das experiências íntimas e coletivas de um povoado blindado por encantaria e amor-próprio. Encantam, também, as atuações orgânicas de mulheres, homens e crianças locais (atores ou não) que dividem as cenas com nomes já conhecidos do audiovisual nacional, como Sônia Braga (Aquarius) e Silvero Pereira (da novela A Força do Querer).

O desenvolvimento do drama começa em paralelo à chegada de Teresa (Bárbara Colen) à cidade de Bacurau para o funeral da matriarca da sua família. Com uma grande exposição externa das regiões brasileiras. Embora essa situação seja explicada e desenvolvida no decorrer da obra, fazendo uma especulação sobre uma possível onda de terror e violência que corre por todo seu território. Bacurau enfoca num nordeste futurista explorando as relações desiguais do poder entre a metrópole e a colônia através da introdução de um grupo de estrangeiros que passam de forca desumana e por motivo torpe a caçar os habitantes locais.

A cidade em que se passa a história, tirada do mapa via truque de vilão, mas resiste pela força da união, afeto e uso inteligente das ferramentas de comunicação online contra as adversidades de uma, estrangeira, de cunho imperialista. Outra daqueles de dentro que não têm vergonha de explorar a própria terra em prol de um neocapitalismo de cunho religioso ou de uma velha política repaginada como “nova”.

Ao longo do filme se reconhece essa desigualdade, aparentemente desnivelando o jogo de manipulação ao salientar as avançadas tecnologias utilizadas pelos forasteiros de Bacurau. O filme instiga a uma desconfortável reflexão sobre o conturbado tempo atual, encontrando na experiência e na tradição aquilo que é para muitos considerado como “passado”, a esperança de um futuro comum, possível e diverso. Um futuro não pautado pelo número de mortes que se produz, porém, equilibrado pela empatia, laços fortes e comunhão, características dos povos nativos e afrodescendentes que compõem o mosaico heterogêneo da cultura popular.

Apesar das trágicas mortes dos moradores locais, elas nunca são tão trágicas como as dos cruéis invasores, o que é uma decisão brilhante dos cineastas, já que se trata de uma resiliência e amostra de resistência do povo de Bacurau. Qualquer semelhança, se tratando de Mendonça Filho, não é mera coincidência.

No fim, Bacurau deixa uma mensagem diferente em cada espectador. Mendonça Filho e Dornelles parecem propor, através do longa de ficção, um mix entre uma bifurcação e a realidade, podendo variar de interpretação. Ao invés de abraçar o pessimismo de uma Brasil distópico em que é possível se tomar as rédeas do país e encaminha-lo a um destino mais favorável. Assim o filme, a cidade e o pássaro passa o recado de que: se não for bom, enterra!

Assista ao trailer:

Acesse o site oficial do filme, clicando aqui.

*Especial para o Cinerama.