Um ano após do estrondoso sucesso de Hereditário, Ari Aster retorna com Midsommar, um filme hipnótico e memorável que atesta o talento do diretor. Aclamada pela crítica e intensamente debatida pelo público, a obra faz parte da fase de transição (ainda sem nome) que o terror vive nos cinemas, onde o gênero parece se recuperar de uma monótona crise de identidade. Com muito vigor, diga-se de passagem.

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Nesta fase, prioriza-se a inventividade em detrimento do susto pelo susto, e o perpétuo choque em detrimento de conclusões previsíveis ou aliviantes. A Bruxa, Hereditário, Ao Cair da Noite, Corra!, Jogo Perigoso, Midsommar… O cinema de terror mainstream engatinha com segurança em direção ao triunfo do medo. Medo primitivo e moderno. Medo natural e sobrenatural.

Onde estamos?

O filme conta a história de um grupo de amigos que viaja, a convite de um deles, até uma vila sueca para presenciar um festival tradicional de verão. Quando chega, o grupo se familiariza com os excêntricos anfitriões e seus costumes, mas não demora até que as festividades, a princípio inofensivas, tomem um rumo perturbador.

Existe uma certa obviedade na premissa de Midsommar e uma igual previsibilidade no cerne da trama. Não é spoiler dizer, por exemplo, que os anfitriões do festival são lunáticos com tradições assassinas. É o que se espera tendo qualquer contato com o material publicitário do filme. A personalidade do longa não mora nas coisas que acontecem, mas sim em como elas acontecem.

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O cinema existe há mais de 124 anos. Nas telas já vimos todo tipo de crime, morte, conspiração, recomeço, traição, conquista e tantas outras mímicas da vida. Estamos anestesiados. Impactar o público nos dias de hoje é um desafio, especialmente partindo de um argumento tão familiar. Por sorte, a pessoa por trás das câmeras que folheiam Midsommar sabe o que faz.

Ari Aster é um poço de criatividade. O diretor e roteirista ostenta seu talento com segurança, sem jamais ceder à presunção. Seus planos, cortes, trilhas e efeitos sonoros são cirurgicamente posicionados para criar, a partir do roteiro, uma experiência onde o tempo é uma abstração distante, tão desconcertante e profana quanto os ritos da pequena comunidade. O filme não dá a mínima para o bem estar do público. Se dá, é para intimidar este bem estar até que ele atinja valores negativos.

Por exemplo, durante o verão no norte da Suécia, onde se passa a história, não anoitece plenamente. Esta peculiaridade, obviamente, abala os personagens. Para que mexa também com o público, as câmeras usadas no filme estão calibradas com uma sensibilidade à luz um pouco acima do comum. Não muito, só o suficiente para que o Sol comece a parecer invasivo.

Este e outros detalhes nas decisões criativas elevam o filme a um patamar artístico muito mais nítido e apreciável, onde apesar das batidas familiares, ele se torna marcante à sua maneira.

Quase tudo são flores.

O roteiro de Midsommar é impiedoso. Não há para onde fugir, tanto em termos geográficos quanto dentro da narrativa. Sofrimento é o objetivo primário da literatura do filme, que constrói com sucesso sua sádica jornada esotérica. Quando ela termina, olhamos para o começo da história com um sentimento muito próximo da nostalgia. Tudo muda tão gradativa e drasticamente na vida desses personagens fictícios, que eles, eventualmente, tornam-se reais. Pessoas reais vivendo um pesadelo real. Uma ideia de difícil digestão.

Mas antes que a jornada seja concluída com todos os seus méritos, o roteiro e a direção apresentam problemas. Trata-se de um filme relativamente longo, onde o ritmo parece se equilibrar em uma corda bamba. Enquanto a primeira metade do longa é densa e recheada de descobertas, em momentos da segunda hora o enredo sofre uma quase fatal desaceleração. A vila misteriosa parece simplesmente estagnada, com personagens inertes que não questionam ou reagem aos absurdos que vêm se acumulando ao longo das semanas.

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A apatia dos personagens é coerente com os objetivos do roteiro, mas é incompatível com a perda de ritmo que a viagem sofre. A suspensão da descrença de quem assiste ao filme começa a ser testada. As bizarrices tornam-se redundantes, os personagens não parecem mais portarem almas e a extravagância da fábula diurna emana uma gratuidade desmotivante.

Mas nada disso faz muita diferença uma vez que os créditos sobem. O filme se recupera antes que a quebra de imersão seja irreversível, fechando o macabro conto de fadas de forma bastante satisfatória e desesperadoramente realista, especialmente se nos lembrarmos de como tudo começou; simplesmente mundano.

REVER GERAL
Nota
“It's funny how the colors of the real world only seem really real when you viddy them on the screen”