Crítica | Wrinkles The Clown, muito melhor do que você imagina

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Você sente pavor de alguma coisa?

Não estou falando de coisas explicáveis, como assassinatos, ou violência física, estou falando daquele medo desconhecido que nasce em uma lenda, uma história contada pela metade, o medo de um vulto?

Eu fui criança no final dos anos 90, tendo nascido em 87, lá para perto de 96, 97 existia a lenda da Kombi dos palhaços. Me lembro de ouvir diversas vezes “não aceite doces de estranhos, não aceite doces de palhaços, não vá sozinho na rua para muito longe de casa”, alguns dias o medo era tanto que nós não tínhamos coragem de dar uma volta no quarteirão.

Wrinkles the Clown é um documentário lançado este ano (2019) sobre um fenômeno americano que começou em 2014 e ganhou força em 2015 e 2016. Trata-se da história deste palhaço realmente aterrorizante na Flórida que… aqui fica interessante.

Foto: Magnolia Pictures & Magnet Releasing

Começa com um adesivo contendo a foto creep do palhaço, um número de telefone e o nome, apenas isso. Com esse pequeno pedaço de informação, diversas histórias se ramificam.

Quem conta sobre o Wrinkles tem uma versão própria, profunda, e cheia de misticismos.

O trailer mostra um palhaço que pode ser contratado para assustar as crianças, já partes do documentário falam sobre uma lenda urbana que paira sobre a cidade, algumas crianças dizem que ele é um assassino, adolescentes falam sobre distúrbio de múltipla personalidade.

Foto: Magnolia Pictures & Magnet Releasing

São três filmes

O documentário funciona como três mensagens distintas que se misturam.

Entre as cenas do Wrinkles real, a equipe de filmagem também encenou as suposições dos moradores ou das crianças. Por exemplo, se um determinada garota imaginativa supõe que Wrinkles matou uma criança e pintou a parede com o sangue, é isso que o documentário irá mostrar.

Também há a história do homem que pode ser contratado, ou contactado, para assustar crianças. Basta ligar para o número do adesivo, superar a voz aterrorizante da caixa postal e marcar a visita.

Muitas cenas da internet (fotos e vídeos) servem para corroborar e desmentir, ao mesmo tempo, todas as suposições: ele pode ser um serial Killer, ele pode ser apenas um velho maluco que ganha dinheiro assustando crianças, ele pode sequer existir e ser uma brincadeira de péssimo gosto.

Foto: Magnolia Pictures & Magnet Releasing

Terceiro ato, o melhor do filme

Aqui chegamos ao que existe de melhor neste documentário, as lições sobre como as coisas se alastram pela internet e o real modo de fazer terror.

Wrinkles ensina que para ter um efeito de pânico, espalhar horror e fazer as pessoas realmente ficarem desesperadas, você deve apenas dar um gostinho, uma amostra do que poderia acontecer e depois deixar que cada uma complete a história com aquilo que mais teme.

É como você receber uma amostra grátis minúscula e depois deixar que a sua mente conte o resto da história, claro que você usará aquilo que mais teme, diferente de mim, que completarei a história em outra direção.

Além de tudo, o terceiro ato do documentário também explora o uso da internet (sobretudo o Youtube) de um modo que nem Black Mirror é capaz de ensinar. Ele esfrega na nossa cara a relação de negligência sobre o que está sendo postado e consumido no Youtube. E como a “criação de conteúdo” pode tomar caminhos absurdos e muitas vezes prejudiciais para a saúde mental (ou você acha normal uma Youtuber vender a água da banheira dela e diversas pessoas comprarem?)

Wrinkles foi algo enorme

As histórias de Wrinkles tomaram proporções gigantescas nos EUA. Diversos jornais fizeram a cobertura do assunto, cidades em diversos Estados acionaram a polícia com queixas sobre palhaços assassinos espalhados pelas ruas, passeatas foram organizadas para caçar essas pessoas mascaradas (se é que as tais pessoas existiam mesmo) e distritos inteiros tiveram casos de pânico coletivo.

Tudo isso graças ao adesivo com a foto, o nome e o telefone, alguns vídeos na internet e pronto. A imaginação das pessoas dominou a história e a levou até onde poderia levar, e continua levando, usando as redes sociais como impulsionador.

Sobre a parte técnica

Tecnicamente o documentário tem falhas, a construção dos personagens também não é primorosa, mas é um documentário que vale assistir. Se você quiser aumentar a sua bagagem de informações sobre a internet, a psiquê do Terror e os lados feios presentes na cultura do influenciador digital, Wrinkles the Clown será uma fonte.

Equipe, nomes, etc. essas infos. “quadradas” vocês podem encontrar no IMDB ou no site que você vai usar para ver o documentário, não compensa gastar palavras aqui com elas.

É isso, se você curtir, ou odiar, o documentário, comenta aí, eu estou sempre lendo tudo o que vocês escrevem nas minhas postagens do Facebook. Abraços e bom filme.

Abaixo eu deixo o trailer: