Reino Unido começa a tratar o vício em maratonar séries como condição clínica

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No Reino Unido, pela primeira vez, o vício em maratonar séries de TV está sendo tratado como uma condição clínica. O fenômeno é relativamente novo, tornando-se prevalente com o crescimento das plataformas de streaming. Trata-se da prática de consumir, de uma vez só, diversos episódios (ou temporadas) de um determinado seriado.

Antes da explosão do streaming, redes de televisão costumavam disponibilizar apenas um episódio de suas produções a cada semana. Em raras exceções, minisséries eram editadas no formato de longas-metragens e canais organizavam maratonas que exibiam alguns episódios em sequência.

Esta ordem, mantida intacta durante décadas, foi rapidamente abalada e praticamente substituída pelo surgimento da Netflix. A empresa, que em seus primórdios entregava DVDs por correspondência, decidiu desbravar o mercado de entretenimento on demand online. Em pouco tempo, a gigante californiana pavimentou a estrada que nos traria aos atuais modelos para consumo de conteúdo.

Reino Unido começa a tratar o vício em maratonar séries como condição clínica
Netflix

No início, o serviço funcionava apenas como um agregador do conteúdo de terceiros, uma espécie de locadora online. Ao longo dos anos surgiriam as produções originais, com filmes e séries sendo totalmente liberados aos assinantes. Temporadas completas de grandes produções estavam disponíveis ao alcance de um clique. Aí estava a gênese de um problema.

Se antes, uma semana inteira separava dois episódios de um seriado, agora bastava um botão para que a história continuasse. A ansiedade gerada por um gancho do roteiro era facilmente solucionada pelo próprio espectador. A praticidade ainda é inegável, assim como seu efeito colateral.

O maior objetivo de empresas como a Netflix ou o Facebook, por exemplo, é reter a atenção dos usuários pelo maior tempo possível. Para isso, cria-se uma avalanche interminável de conteúdo, que pode se apresentar na forma de um feed infinito ou como a reprodução ininterrupta de vídeo. De uma forma ou de outra, sua atenção deve ser sequestrada a todo custo.

Reino Unido e o combate ao vício

Segundo o jornal britânico The Telegraph, pacientes estão buscando ajuda clínica para tratar o vício em séries de TV. Até o momento, o psicoterapeuta Adam Cox tratou três pacientes por este motivo em sua clínica. Foram os primeiros casos registrados no Reino Unido. Diversos pacientes admitiram a perda de controle sobre o consumo de séries, ao ponto de colocarem em risco suas carreiras e relacionamentos pessoais. Cox disse:

“Todos os três caíram em um ciclo perigoso, onde se sentiram incapazes de se desligar. Eles só precisavam ver o próximo episódio, e depois outro e outro. Um gancho de TV é um mecanismo de recompensa – como bebida ou drogas. Ele libera dopamina e isso pode ser um problema para pessoas que têm outros estresses ou ansiedades em suas vidas. Causa falta de sono, o que derruba a produtividade e impede as pessoas de formarem relacionamentos adequados “.

Em um caso específico, o paciente criou o hábito de maratonar séries após assistir Breaking Bad. Não demorou até que ele estivesse habituado a passar mais de 7 horas por dia na frente da televisão. Este vício prejudicou não somente sua saúde, mas também ameaçou seu futuro profissional. Cox o aconselhou e tratou com terapia cognitivo-comportamental.

AMC

O jornal entrou em contato com a Netflix, mas a empresa se recusou a emitir comentários sobre o assunto. Segundo a publicação, funcionários da empresa defendem o modelo propagado pela plataforma.

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O surgimento de pessoas acometidas pelo vício em séries de TV não é uma surpresa. Já existem condições catalogadas que se baseiam no mesmo princípio de ansiedade, como a Síndrome de FOMO.

No fim das contas, casos como os apresentados pela matéria servem como um alerta a todos nós. Por mais que pareça papo de boomer, existe uma necessidade urgente de repensarmos nossos hábitos e objetivos na internet. A nocividade do fluxo infinito de conteúdo é comprovada e, em um mundo cada vez mais dominado por vazio e ansiedade, somos todos presa fácil.

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